inNatura3

Innatura3 (2013)

Innatura 3
  • 01 - Cidade a flutuar
  • 02 - Um que fazer
  • 03 - Rainha dourada
  • 04 - Ragga Dance
  • 05 - Quero te encantar
  • 06 -Jacarandá do Cerrado
  • 07 - Brilho da cidade
  • 08 - Velejo no Cumbuco
  • 09 - A pé
  • 10 - Watacoco
  • 11- Passageira
  • 12 - Respeitar o mundo

Release - InNatura3

Os componentes que regem a arte musical da In Natura estão mais uma vez em evidência: os instintos humanos, a preservação do ambiente, a beleza em seu estado natural, a contemplação da vida e o amor. São estes os elementos que formatam a mensagem sonora da banda em seu terceiro álbum recém lançado pela brasiliense GRV Discos.

As 13 faixas inéditas espanam versatilidade musical no In Natura 3 ao aliar o que há de melhor nas raízes do som genuinamente brasileiro às tendências internacionais. São levadas do Reggae e do Ragga originais da África e do Caribe, com esbarrões acústicos em ritmos negros tradicionais do Brasil - da capoeira à cantiga de roda.

A banda abusa dos ingredientes nacionais para refletir seu espírito tropical e praiano. Tudo com muito groove e toques eletrônicos, incorporando também os sons de metais, cordas e percussão à altura do profissionalismo que rege as composições da banda.

Essa abordagem “beira mar”, no entanto, não deixa esquecer o ponto de partida do trabalho da In Natura. É de seu bioma natural, o cerrado, que Izabella Rocha e Bruno Dourado (Vocais e Letras) convocaram outras “feras” de projeção da cena musical brasiliense – Kiko Peres (Guitarra), Marcelo Pahl (Bateria) e Bruno Xavier (Baixo), tendo ainda Leander Mota (Percussão) dividindo as funções nos timbales e atabaques com o polivalente Bruno – para assim formar o “back bone” instrumental do trabalho. As digitais sonoras destes artistas de renome estão em toda a obra, que conta também com a participação de outras personalidades convidadas.

O quinteto principal da In Natura desfruta da intimidade e talento necessários para traduzir ao imaginário dos ouvintes os cenários das paisagens e dos sentimentos humanos em suas cantatas. A sinestesia entre a imagem e o som converge nas vozes da dupla de lead singers. O casal Bruno e Izabella se alterna no microfone principal, conforme o torque melódico e a variação dos estilos musicais das faixas do CD que mais lhe caem bem.

Na trilha Cidade a Flutuar que abre os trabalhos, a banda mistura timbres modernos das cordas da guitarra, melodias de violino e programações futuristas de teclado. O resultado é um reggae-rap, acentuado pela voz do rapper MV Bill, que firma sua participação com trocadilhos ritmados em cima das palavras proferidas por Izabella Rocha.

Do outro lado do Atlântico - da Mãe África- vem o aporte talentoso do músico gabonês PacôMelézoTrês que versifica em francês trechos da Ragga Dance, introduzindo a tônica social e a estética urbana que conduz o olhar estrangeiro sobre o nosso Brasil continental.

Em Um que fazer, um reggae- pop e forte candidato a novo hit da banda, Bruno Dourado canta a mensagem de amor e de busca por sua amada, contextualizada no ócio contemplativo da natureza e da “saudade imensa” que a ausência dela instiga. A letra e música são de Fábio Allman (Monobloco), Fernando Velozzo e Carlos Pontual. Nesta faixa, o instrumental do In Natura 3 recebeu adições: nos teclados de Pedro Augusto, e no talento clássico dos irmãos Luis Paulo, André e João Pedro Dourado (violino , violoncelo e violão, respectivamente).

Em outros momentos do CD, o genoma musical da In Natura é revisitado e nos aproxima dos de suas origens - a já consagrada Natiruts. A trilha Passageira, gravada em 2002, recebe uma releitura e traz a participação da guitarrista Mônica Agena (Natiruts).

A ótima Jacarandá do Cerrado homenageia a flora e fauna do Brasil, tendo o cerrado em seu foco sonoro, e reclama a preservação da matéria prima do instrumento berimbau, fonte de arte e criatividade do vocalista já nos idos 1990.

São os ventos de um passado que levantam a trilha Velejo em Cumbuco, exalando o ritmo tranqüilo e maneiro das experiências vividas entre os amigos Rodrigo Amaral e Sérgio Maione, em composição coletiva da letra, ao lado de Bruno, neste paraíso do kite surf do Ceará. O toque especial vem do sopro pulmonar, denso e melódico do especialista Guigui Trotta (Gaita) brasiliense radicado no Rio de Janeiro e que deixa aí a sua marca.

A mutualidade do amor pleno, completo e recíproco, que emana do coração do álbum In Natura 3 vem reforçada de onde mesmo mais se espera: é a voz de Izabella Rocha que encadeia a mensagem e sonoridade do trabalho da banda.

Ao longo de várias faixas do novo álbum, a intimidade com que projeta sua voz de veludo é assimilada facilmente pelos colegas, fazendo flutuar os arranjos musicais de seus velhos e novos companheiros da vida, da arte e do palco.

Em Quero te encantar, a letra de Dora Vergueiro é embalada na melodia vocal de Izabella em performance instrumental, com breves acelerações ritmadas e minimalistas. Alheia a terminações silábicas repetitivas, a vocalista acentua a quebra dos versos e dita o torque das palavras, pontuando os sentimentos na levada desta música eivada de brasilidade.

Mas encanta ainda mais quando entoa a beleza da mulher brasileira, a senhora do carnaval da vida cotidiana; cosmopolita, letrada em idiomas e sublime como as sereias do mar é melodicamente enaltecida em estilo cantiga de roda na faixa Rainha Dourada.

A trilha A pé traz uma balada leve que mistura o Reggae e o ritmo da Salsa caribenha e aborda as contradições da vida e do amor.

E quando os vocais da alma silenciam, é a vez da poderosa instrumental Wacatoco. A música composta por Bruno Dourado é executada com a parceria de metais brasilienses dos Móveis Coloniais de Acajú – Xande (trombone) Esdras (sax barítono) e Paulo (sax Tenor). Este ska sonoro psicodélico é um chamamento e teste aos instintos primitivos do ouvinte. Um pulso certeiro instigando as energias do movimento corporal e da libertação que só a música pode oferecer.

Destaque também para a participação do virtuoso trompetista Moisés Paraíba que enobrece além de Wacatoco, outra faixa do álbum. Em Brilho da Cidade, dá o seu retoque °metal° em um solo desta composição de reggae chill-out de excelente qualidade.

A pequena Gabriela Rocha, filha do casal de apenas 8 anos, faz seu debut artístico na gravação de Respeitar o mundo, composta por seus pais ainda em 2001 quando integravam o Natiruts. O trio canta em uníssono o poder da intuição como chave ao sentido maior da vida: a evolução do ser e o respeito ao mundo no caminho da paz. Guitarras havaianas arrematam a obra.

Para concluir, o In Natura 3 é o som de Bruno , “Bella” e cia em seu estado natural de simbiose e evolução. A música que nasce da parceria madura do casal de músicos é a mesma que os projeta para a vida, no terreno artístico e social, e retro-alimenta a sua obra.

Gustavo Arnizaut é jornalista colaborador dos projetos da GRV Discos desde o ano 2000. Mantém relações de amizade e profissionais estreitas com vários expoentes da cena musical e cultural brasiliense, sendo parte do grupo seleto de amigos admiradores e profissionais que contribuem com a projeção dos talentos da geração 80-90 de Brasília, que o influenciou artisticamente e para qual colabora.

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Bossa Ragga (2010)

Bossa Ragga
  • 01 - Bossa Ragga
  • 02 - Um Lugar
  • 03 - Todos os sonhos
  • 04 - E Dom
  • 05 - Natural
  • 06 - Alguém como você
  • 07 - Labirinto
  • 08 - Aqui no Rio
  • 09 - Nova Vida
  • 10 - No mar
  • 11- Solta pelo mundo

Release - Bossa Ragga

De Léo e Bia a Eduardo e Mônica, em Brasília o amor sempre terminou em música. Mas no caso de Bruno Dourado e Izabella Rocha, a música desabrochou no amor – e o amor se desdobrou em música novamente. O percussionista e a cantora se apaixonaram no Natiruts, onde atuaram por 11 anos, casaram-se, trouxeram ao mundo a primeira filha, Gabriela, em 2004, e em 2006 saíram da banda de reggae para montar a InNatura com o brother Kiko Peres, que havia deixado o Natiruts em 2002.

Essa parceria na música e na vida chega agora ao segundo rebento, “Bossa Ragga”, gravado em novembro de 2010 por Tiago Sampaio, com mixagem de Daniel Felix (Mix Roots Estudio) e masterização de Ricardo Garcia.

Após estrear em disco em 2008, com o CD/DVD ao vivo “Um artista brasileiro”, Bruno, Izabella e Kiko, que haviam deixado o Natiruts para se dedicar mais às famílias e aos filhos, voltaram a cair na estrada. Logo a música “Sorriso de Flor” – de outro brother, Rafael Pondé, ex-integrante da banda baiana Diamba – estouraria nas rádios, fazendo da InNatura o grupo mais tocado na série global “Malhação”.

Os palcos – e os encontros pelo caminho – ajudaram a forjar o que se desenhava em formato acústico na estréia e agora ganha corpo com formações mais “completas”. Isso consolidou uma proposta que, embora ainda mantenha o reggae como referência principal, se abre a vários outros gêneros e estilos, numa mistura cada vez mais equilibrada.

Se “Um artista brasileiro” foi o grito de liberdade de artistas em busca de novas formas de se expressar, mas ao mesmo tempo ainda com um pé nas experiências e canções da fase anterior, “Bossa Reggae” representa o amadurecimento de Bruno e Izabella como compositores e aponta os caminhos que a InNatura poderá tomar a partir de agora.

Dessa vez, todas as músicas são de autoria dos dois ou em parcerias com outros artistas. A exceção é a releitura de “Matança”, do recluso arquiteto e compositor baiano Jatobá, sucesso nos anos 80 na voz de Xangai.

Imaginem Tom Jobim encontrando a histórica banda brasiliense Mel da Terra para tocar uma bossa com uma levada diferente. Índios brasileiros numa celebração xamânica ao som dos tambores nyahbinghi. Jorge Benjor e seus alquimistas provando o chalice da paz de Bob Marley. O velho toast jamaicano dando as mãos ao filho abusado do Bronx. Os Stones pegando uma cachu com Sá & Guarabira na Chapada dos Veadeiros. A hora da música lenta no baile black em Madureira. Ou o violeiro Xangai empunhando uma guitarra, como na primeira vez em que Bob Dylan plugou as cordas para entoar suas canções de protesto, e o folk nunca mais foi o mesmo.

São imagens que fluem das 11 faixas de “Bossa Ragga” tão naturalmente quanto Izabella e Bruno se revezam nos vocais principais, cada vez mais seguros também de suas novas funções de band leaders. E a “cozinha” que eles arregimentaram facilitou muito essa tarefa. Além da banda base de “Um artista brasileiro”, estão na ficha técnica deste segundo álbum alguns dos músicos mais interessantes e experimentados de Brasília e do país.

Sangue novo do reggae brasiliense, como os “Brasucas” Felipe Souljah, Emmanuel e Marcelo Pahl, formam lado a lado com veteranos como o saxofonista do Roupa Nova, Daniel Musy, o flautista Paulinho Matos (do Mel da Terra) e o baterista Leander Motta. O parceiro de primeira hora Kiko Peres também aparece com sua guitarra mágica, trocando figurinhas com o baixista Luis Maurício e o tecladista Bruno Wambier, velhos colegas do Natiruts. Além da presença espiritual do sucessor de Kiko no Natiruts, Tonho Gebara, morto em 2003, com a faixa “Alguém como você”, sua última composição, feita em parceria com Bruno e Izabella.

Mas se há (muitas) novidades neste segundo álbum, a atitude simples e relax que conquistou o país na estréia continua presente, sempre marcada por um ar tipicamente brasiliense, aquela mistura do cosmopolitismo de quem convive com gente do mundo inteiro com o provincianismo sadio de quem faz questão de estar sempre junto dos amigos, falando dos filhos, de alegria, da sede por solidariedade, do amor à natureza ou simplesmente do amor – ah, o amor.

Faixa a faixa, aqui vão algumas impressões de “Bossa Ragga”:

1 - Bossa Ragga
Quando esteve grávida do irmão mais novo de Gabriela, Rafael Dourado, Izabella batizou o disco com letra, música e a voz principal da bossa misturada com elementos do raggamuffin conduzida pelo piano classudo de Bruno Wambier e o baixo seguro de Luis Maurício, ambos do Natiruts. Ao lado deles, os Brasucas Marcelo Pahl (bateria) e Felipe Souljah (guitarra solo), e Paulinho Matos, vocal e flauta do Mel da Terra, a primeira grande banda pop de Brasília.

2 - Um lugar
Letra e música de Bruno, que também faz a voz principal e a percussão nyahbinghi sobre a base gravada pelos mesmos músicos da primeira faixa, com a adição dos teclados de Emmanuel (Brasucas) e do canto xamânico de Tiago Queiroz.

3 – Todos os Sonhos – Alegria
Letra, música e voz de Izabella na faixa gravada pela banda base de “Um Artista Brasileiro”, com a guitarra do baiano Rafael Pondé e um fecho à la dub style da mixagem de Daniel “Scratch” Felix.

4 - É Dom
Canção de Bruno com a parceria na letra do MC Japão, do grupo Viela 17. Essa feliz união de reggae e rap será o primeiro videoclipe de “Bossa ragga”, com direção de ninguém menos que o cineasta Bruno Bastos (de “Falcão, meninos do tráfico”). Bruno aproveitou para matar saudade do berimbau, companheiro inseparável dos tempos de Natiruts, e ainda chamou o amigão Raphael Mira (ex Alma D’Jem) para conduzir as congas.

5 – Eu e você - Natural
Izabella fez música e letra para a balada folk gravada pela banda base que acompanhou a InNatura no primeiro disco, com participação mais do que especial – a primeira do disco – de Kiko Peres numa levada de guitarra digna do Stone Keith Richards.

6 - Alguém como você
Parceria de Bruno e Izabella com Tonho Gebara, que havia substituído Kiko Peres no Natiruts em 2002, mas morreu um ano depois. “Em 2003, perdemos o Tonho, mas ele nos deixou essa que foi sua última canção”, conta Bruno. Nesta gravação, todos os músicos são ou foram do Natiruts, com destaque para o solo tributo a Tonho Gebara de Kiko Peres e os teclados psicodélicos de Pedro Paiva, parceiro de Baia e Rock Boys.

7 – Labirinto
Izabella e Bruno “poemizaram” a melodia de Bruno para essa balada com guitarra solo ao melhor estilo black song de Daniel Felix.

8 - Aqui no Rio
Suingue de Bruno Dourado com o grande Gabriel Moura (ex Farofa Carioca), esquenta o álbum falando de Fla X Flu no Maracanã e do verão na Cidade Maravilhosa, sonhos de muito brasiliense. O bate-bola reúne o saxofonista Daniel Musy (Roupa Nova) e os brasilienses Jair Santiago (guitarra), Leander Motta (bateria), Dido Mariano (baixo) e Jorge Bittar (teclados).

9 - Nova Vida
A primogênita Gabriela é a musa desta e da próxima música. Nesta, Izabella canta uma linda melodia sobre a base drum’n’bass muito bem tramada pela dupla Leander Motta e Dido Mariano, dialogando com o teclado de Jorge Bittar e a guitarra da revelação brasiliense Marcela Honda.

10 - No Mar
Aqui, Gabriela aparece em pessoa, dando charme ao lover’s rock em clima britânico de Bruno, que assume a percussão e levanta a bola para Ricardo Dourado fazer um golaço com o solo de clarineta.

11 - Solta pelo Mundo
Izabella chamou a baiana DJ Miss Cady para falar de uma das coisas preferidas de qualquer jovem: viajar pelo mundo com os amigos. Sobre a levada de bateria eternizada pelo saudoso Carlton Barrett, dos Wailers, Bruno volta a assumir as percussões como nos velhos tempos de Natiruts.

12 – Matança
Não houve ambientalista na década de 80 (sim, já havia ambientalistas) que não soubesse de cor o maior sucesso do cantor e violeiro baiano Xangai. “Esse era o hino da Engenharia Florestal, curso que concluí na Universidade de Brasília. Viva a Floresta!”, saúda Bruno. A canção acústica deu lugar a um rock rasgado com guitarras distorcidas e elementos da música eletrônica sampleados pelo DJ Gustavo FK (Temptation Live Band).

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CD e DVD - Um artista brasileiro (2007)

Um artista brasileiro
  • 01 - Beleza Divina
  • 02 - Sorriso de Flor
  • 03 - Carcaça
  • 04 - Eus
  • 05 - Lado Oposto
  • 06 - In Flow e Foi
  • 07 - Princesa do Cerrado
  • 08 - Já Valeu
  • 09 - Misteriosa Atração
  • 10 - Tambor
  • 11- Morena do Mar
  • 12 - Pode o Céu Cair
  • 13 - Discípulo de Mestre Bimba
  • 14- Clareou
  • 15- Andar pela Ilha

Release - Um artista brasileiro

Andava com saudades da Izabella, do Bruno e do Kiko do Natiruts? A boa nova é que eles estão aí de volta à cena, com o projeto InNatura.

Mas para saber qual é a melhor nova, você terá que ver e ouvir esse DVD/CD de estréia do trio, Um Artista Brasileiro. Pois quem conhecia Bella e Bruno como vocalistas de apoio da banda brasiliense, um dos grandes nomes do reggae brasileiro, terá uma grande surpresa: eles foram à frente e enfim revelaram suas vozes, defendendo um repertório que engloba suas músicas no Natiruts, pérolas de novos compositores e algumas inéditas da própria lavra. Em formato acústico – basicamente violões e vozes –, as canções revelam novos caminhos para esses artistas brasileiros: o reggae continua a ser uma referência, mas agora sua música tem também fortes o folk, o soul, o samba-rock e até o jazz – sempre de forma natural, que é como as coisas acontecem para esse pessoal.

Foram 11 anos de Natiruts até que Izabella Rocha e Bruno Dourado resolvessem dar um tempo. Eles se tornaram pais da pequena Gabriela e, em 2006, chegaram à conclusão que era melhor deixar a estrada de lado e cuidar da vida. No sossego da família, novas musicalidades afloraram. De repente, não mais que de repente, lá estavam eles ensaiando músicas com Kiko Peres, mestre da guitarra que deixara o Natiruts em 2002 para se dedicar a uma carreira solo e a projetos de produção fonográfica.

Em ensaios descompromissados, nas tardes de sábado, foi sendo delineado, ao longo de seis meses, o repertório e os arranjos de Um Artista Brasileiro – aliás, esse era o nome de um show intimista em que Izabella cantava músicas de alguns dos novos compositores que conhecera ao longo das turnês com o Natiruts. O primeiro show do InNatura acabou sendo justamente o da gravação do DVD – em junho de 2007, na sala Martins Pena do Teatro Nacional de Brasília, com direção de José Eduardo Belmonte. Sem pressões, totalmente independentes, Bella, Bruno e Kiko mostraram então a que vieram. Não poderia haver melhor cartão de visitas que a faixa “Beleza Divina”, uma das inéditas do DVD, que Izabella e Kiko compuseram para a trilha do curta-metragem Uma Questão de Tempo, de Catarina Acioly. Nela dá para perceber que Bella tinha toda uma voz escondida, agora reluzindo num pop violeiro de muitas delicadezas e alto astral – “seu corpo balança, anuncia a primavera”, canta ela. A festa segue, com o trio mais banda de apoio (Jair Santiago no violão, Hamilton Pinheiro no baixo, Txotxa na bateria, Fernando Palau no piano e teclados, Edinho na percussão) em “Sorriso de Flor”, composição de Rafael Pondé, ex-integrante banda baiana de reggae Diamba. “Agora tenho que plantar / na roça pra vender na feira”, cantam Bella e Bruno, reforçando o clima interiorano, de tranqüilidade em meio às belezas naturais, em mais este pop violeiro que traz a marca do InNatura.

Aos poucos, o grupo vai mostrando as suas boas companhias em Um Artista Brasileiro. “Carcaça”, obra do ex-Dread Lion Luís Carlinhos com Baia e Fusuê, injeta melodia e otimismo no disco: “eu sigo com a minha esperança / de que tudo vai clarear”. É também o número do DVD em que Bella aproveita para apresentar os bailairinos Selma Trindade e Teresa de Castro em meio a uma deliciosa atmosfera teatral. Outra de Luís Carlinhos é “Já Valeu”, bela balada em que a voz de Bella deita e rola e ainda conta com a participação de Carlos Ataualpha no trapézio. Mais um dos destaques do disco é “Eus”, de Baia e Gabriel Moura, líder do Farofa Carioca – uma soul music existencialista, de versos fortes como “não sou Deus, mas sou eus / eu também sou milhões de eus”. Já Tonho Gebara, infelizmente falecido guitarrista do Natiruts, tem sua memória celebrada pelo InNatura com nada menos que três músicas: o folk meio Dylan, meio Raul Seixas “Lado Oposto”, o jazzy-baião- reggae “Tambor” (parceria com Luís Carlinhos e Rogê) e “Pode o Céu Cair” (com Shilon), um aceno ao samba-rock (“achei um Lp de quando Jorge era Ben”), com citação de Kiko ao solo de guitarra de Jimmy Page em “Stairway to Heaven”. Rafael Pondé, por sua vez, dá as caras novamente no repertório do DVD com o samba-soul “Morena do Mar” e os reggaes “In Flow e Foi” e “Princesa do Cerrado” – este que, por sinal, contou na gravação com o bandolim de sabor ibérico de Dudu Maia.

Um Artista Brasileiro foi também uma boa oportunidade para que Bella, Bruno e Kiko resgatassem suas favoritas dos tempos de Natiruts. Estão lá, com novas roupagens, as músicas “Discípulo de Mestre Bimba” (com os vocais e o berimbau de Bruno, mais a participação de um grupo de capoeiristas), a desencanada “Andar pela Ilha” e o reggae jazzístico “Misteriosa Atração” – ótimos exemplos daquilo tudo que eles tinham de novo a apresentar como InNatura. E, para quem ainda tinha alguma dúvida sobre o valor da rapaziada, o DVD ainda tem mais uma música inédita: “Clareou”, composição de Izabella em que ela esbanja melodias e domínio da língua inglesa – boa para abrir os caminhos no exterior.

E aí está, bem do jeito que eles queriam, o primeiro trabalho do InNatura. “Fizemos nosso DVD sem medalhões, não queríamos nada glamuroso”, conta Bruno. Era assim mesmo que tinha que ser. Perfeito retrato do dia-a-dia e da filosofia desses amantes da natureza e da música, Um Artista Brasileiro dá a partida para a segunda fase da trajetória de Bella, Bruno e Kiko. Naturalmente musical. Ou musicalmente natural – quem ouvir, que tire as suas conclusões. E depois viaje com eles no som.

Silvio Essinger, Março de 2008.

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